quinta-feira, 25 de julho de 2013

Pessoalidade em cutelaria de sobrevivência.

Lâminas de sobrevivência estão entre as polêmicas mais discutiras entre os praticantes de atividades onde sua aplicação pode vir a ser posta a prova.

Isso mesmo, pode vir a ser, porque a realidade é bem menos sinistra do que parece.
O estudante de técnicas de sobrevivência tem a tendência óbvia de se preparar antes de suas atividades corriqueiras, e este preparo envolve o estudo teórico e prático bem como a aquisição de itens que compõe seu kit.
Quanto mais preparado, menos chances tem de ser subjugado por uma situação adversa, é como um jogo, onde as dificuldades teóricas são apresentadas e o sobrevivente aplica meios, recursos e itens para anular ou modificar a situação, algo como : Para frio extremo use cobertores aluminizados, para fazer fogo em áreas úmidas use iscas especiais, para purificar água use cloro, etc, ou seja assim que detectada uma ameaça, procura-se uma solução. As ameaças são captadas de situações corriqueiras, relatos, experiências pessoais, autores independentes, fóruns, manuais e até programas de TV. Já as soluções, via de regra são extremamente diversas e variam de autor para autor.

Por isso é bem comum ver um mesmo tema, ou melhor, uma ameaça específica ter várias soluções apresentadas. Técnicas para se fazer fogo ilustram bem o que digo, cutelaria também.
Todo estudante de sobrevivência sabe que independente do quão preparado e bem equipado você esteja, ainda é suscetível a uma infinidade de contratempos que ainda não foram "listados", ou seja, uma ameaça inédita, e para estas ameaças lançam mão de improviso, gambiarras, conhecimento local, criatividade, vontade de superar e viver, ou seja, fatores pessoais que não podem ser medidos ou sequer comparados e que por sí só definem os caminhos e até o estilo do usuário e suas ideias de sobrevivência.

Vejamos um praticante de bushcraft primitivo com experiência, extremamente minimalista em equipamentos acredita poder encontrar recursos naturais para prover suas necessidades, embora ainda não contestem a regra geral de uma lamina bruta como ferramenta de sobrevivência como ideal, preparam -se para o extremo, treinando o uso ancestral de pedras lascadas como ferramenta de corte. Chegamos ao ponto onde a capacidade de fazer cortes é o importante, e qualquer faca, mesmo aquela do faqueiro de sua cozinha supera a pequena lasca de pedra em diversos quesitos.

O naturalista primitivo não irá hesitar em classificar a rústica lasca de pedra amolada como um recurso de sobrevivência, logo, aquela é sua lâmina de sobrevivência. Claro que falamos de opções, teorias e estudos e este exemplo foi ilustrativo, um praticante de artes do mato com uma visão mais hardcore de certo sequer irá considerar a delicadeza e o cuidado do manuseio de uma lasca de vidro como opção.

Cody Lumdin usa uma simples faca utilitária marca Mora 1, pendurada no pescoço,  como faca de sobrevivência. Josef Teti por sua vez usa uma longa e bruta faca, com quase meio quilo em seu conjunto completo. A polêmica pergunta é o que é uma lamina de sobrevivência? Melhor ainda, o que é cutelaria de sobrevivência?

A pessoalidade das informações cada vez mais me obriga a estudar e elaborar minha própria concepção do tema, muito embora, eu leve muito em consideração autores que seguem um estilo similar ao meu. Quando me refiro a autores, falo das pessoas que opinam sobre o tema nas linhas de pesquisa que eu frequento, foruns, youtube, e comunidades relacionadas e que possuem seguidores que opinam em suas postagens.
Sobre a consistência, ou linha de estudo pessoal qualifico ou desqualifico informações, como no caso da pá.

Uma fabrica nacional produz uma mini pá de jardinagem simplesmente brutal, aço 1060 perfilado com 2,5 mm de espessura e um destes autores desqualificou a ferramenta como sendo um opcional na preparação para uma situação de sobrevivência em potencial, algumas semanas depois exibiu em seu canal uma mini pá dobrável, item útil de fato, mas não chega aos pés da pá de jardinagem em nenhum quesito, exceto uma diferença de 135 gramas de peso, a pá dobrável é delicada, feita de uma chapa fina demais de aço doce, que não sustenta fio de corte, sim, eu comprei uma para dar o meu pitaco e comparar, mas o interessante é a opinião dele que qualificava a pá dobrável como sendo uma pá "de sobrevivência". Ele está errado? Não!
 Talvez a pá não seja um item que ele julgue ser prioritário ao ponto de se exigir brutalidade, assim como Cody Lumdin pensa da faca. Uns acreditam que faca só serve para cortar, outros pregam que deve ser um pé de cabra amolado.

Eu não sou um usuário de laminas que impõe usos extremos ao equipamento, na verdade não imponho usos extremos a nenhum de meus itens de sobrevivência, não os poupo, mas não os levo acima do que se propõe, trocando em miúdos, pra mim faca faz serviço de faca, facão de facão e machadinha faz o serviço de uma machadinha. Preparo e o estudo, como eu disse no inicio deste texto, diminuem drasticamente as chances de complicações em uma situação de sobrevivência e julgo um cidadão que, em uma situação de sobrevivência portando só uma faca, seja ela qual for, e desce a porrada na sua única ferramenta, um idiota completo.
"Sei exatamente quais são os limites de meu equipamento, por conta disso me dou ao luxo de bater, torcer, moer e detonar o item" Boa! Concordo! Mas como sobrevivencialista e também um estudante de sobrevivência, sei que nenhuma situação é ruim demais a ponto de não poder piorar, e acredite ter sua faca quebrada numa situação destas pode ser um belo aditivo de complicação extra.

Ter uma boa e robusta faca é uma garantia de não ficar na mão na hora da necessidade, não um passe livre para atitudes hardcore e sem fundamento prático e o mesmo vale para outras ferramentas, por conta deste meu ponto de vista, pessoal e inserido no universo de autores do tema no Brasil, não desqualifiquei a machadinha da guepardo como item de sobrevivência, e também não acho que deva haver uma métrica para uso do termo "Survival", já que vai de usuário para usuário, e tal atitude desqualificariam teorias comprovadas de sobrevivência, excluindo por exemplo Cody Lundim e sua Mora 1, Otzi e seu machado de cobre e até nossos índios (primitivos) com seus grandes cutelos de pedra lascada.

Todas as diversas variantes pessoais tornam as nomenclaturas variáveis, logo uma pá pode ser um item desejável porém dispensável para uns e incrivelmente qualificado para outros, onde sua avaliação é mais esmiuçada e complexa.
Voltando a polêmica machadinha da guepardo, ou até as facas de cabo oco, já que uso uma dessas como faca de sobrevivência, assumindo os riscos em troca de alguns benefícios, e dentro da minha experiência de formação escoteira, não vi fundamento prático, em uma situação real de sobrevivência, onde se faz necessário rachar um tronco de 12 polegadas ao meio, ainda assim, se esta fosse uma condição qualquer, como uma daquelas inéditas ameaças não listadas que força um sobrevivente a gastar energia valiosa, eu usaria cunhas de madeira e o martelo da machadinha ao invés da torção simples do cabo gerando uma óbvia ameaça de quebra para qualquer ferramenta, não só a guepardo.


Logo, o estudo do sobrevivencialista exige alguma prática em ambiente simulado, para saber medir as informações, as possibilidades e até qual é o seu "estilo" aplicando seus esforços no que julga serem as respostas, ou contra- medidas para as ameaças que irá enfrentar pelo caminho, e acho que a regra para cutelaria de sobrevivência é "Não há regras", não há verdades pétreas ou condições regradas de uso enquanto os seres humanos forem diferentes, e, exceto que você seja membro de alguma corporação que exija o uso de um ou outro equipamento, enquanto civil, tem total liberdade para exercer sua pessoalidade, opiniões e aplicações.

Lembre-se, suas opiniões são muito valiosas para este autor e para todos que acompanham o blog, não deixe de dar seu ponto de vista nos comentários!

Translate

Publicidade